Querida Luna,
Esta manhã eu acordei com uma grata surpresa sobre os meus pés: a
minha boneca dos sonhos fora consertada!
Minha mãe estava meio que impaciente, querendo fazer-me acordar a
qualquer custo para que eu pudesse, enfim, encantar-me com aquele
belo presente... Mães são assim, velam por nós, sofrem com as
nossas dores e animam-se com as nossas peripécias.
Pela primeira vez o meu quarto parecia sorrir para mim, até mais
colorido identifiquei-o! É impressionante como a nossa mente pinta
os nossos olhos com os mais fortes dos pincéis; porque em manhãs
menos frias e mais abertas, a película da tristeza sobre os meus
olhos tornava tudo mais escuro e denso. E hoje, em uma chuvosa
manhã de quinta-feira, minha alegria transforma tudo em cores, não
havia céu nublado formando chuva e sim um belo arco-íris massajando
a minha retina.
Ganhei a minha querida Miriam quando tinha nove anos, um pouco
antes de me mudar para esta cidade, tempos em que os meus cabelos
ainda podiam correr contra o vento. Ela foi um presente da minha
Nana, porque iríamos nos separar (mal sabíamos que seria para
sempre), e ela queria me fazer sentir-se bem pela inesperada e
inoportuna distância. Afirmou-me, nos seus braços e entre abraços,
que eu poderia contar para aquela boneca de plástico com corpo
aveludado e vestidinho lavanda todos os meus mais singelos sonhos,
bem como os mais árduos segredos (ri na hora, pois, naquela época,
eu era uma garota simples, de pés descalços, que não tinha segredos
pavorosos escondidos a sete chaves).
E assim eu vim seguindo os preceitos outrora ensinados, fielmente
acreditando que a minha Miriam poderia me compreender mais do que
qualquer outra pessoa dentro dessa casa. Acho que ela foi a única
que realmente conseguiu acompanhar as minhas mudanças de fase,
quando, aos poucos, fui deixando de ser uma menina sincera, para
uma adolescente cheia de reservas até chegar a uma mulher com mais
interesses ocultos do que causas conhecidas.
Independente de qualquer coisa, mesmo depois dele ter arrancado a
cabeça da minha boneca dos sonhos e feito com ela coisas que eu até
hoje ainda me apavoro quando penso em escrever, amo meu querido
Floggy, que, com certeza, vem me dando mais trabalho do que
qualquer outro animal que já me dispus a ter. Mas nossa! Como eu
fiquei desgostosa e chorei quando passei a crer que de fato a havia
perdido! Era como se eu estivesse me apartando de uma boa
amiga.
Nesta manhã, com ela em volta dos meus braços, recordei mais do que
feliz do cheiro doce da minha bomboniere infância, e, repleta de
saudades gostosas, senti até o sabor daqueles bolinhos com tâmaras
secas que Nana fazia.
Bem que Tara me avisou que essas semanas que estão por vir serão
repletas de boas surpresas. Tudo bem, eu sei que não acredito nem
ao menos na metade do que ela me diz ler nas entrelinhas dos
mistérios da vida; mas, na felicidade em que me encontro neste
exato momento, estou a crer em tudo, quer seja real, fantasia ou
sonho. Estou, por um instante, com fé até no impossível!